terça-feira, 9 de setembro de 2014

Centenário MILTON ALCOVER

Quem foi Milton Alcover?
Há varias versões para esta pergunta.
Dependendo do ponto de vista de quem está falando ou dependendo do ponto de vista de suas atribuições.

A primeira versão é que ele foi um agrônomo.
Mas para muitos ele foi O agrônomo. Apaixonado desde o princípio pelo que fazia. A sua paixão pelas plantas e em especial pelo trigo ficou gravada na vida de muitas familias. Muitas sem nem saber. A sua incansável e interminável curiosidade e necessidade de encontrar sempre algo melhor, fez dele um grande pesquisador. Variedades de trigo foram desenvolvidas pela sua capacidade de sempre seguir em frente. Mesmo quando seu campo de experimentos tenha sido colhido acidentalmente por algum desavisado.
Para este grupo de pessoas Milton Alcover foi um grande PESQUISADOR. Famoso por sua voz mansa e às vezes monótona em suas falas lidas de um discurso previamente escrito e falado até a exaustão, cronometrado, gravado e decorado. Porém muito preciso e certo em suas posições.

Para outros, Milton Alcover foi um COMPANHEIRO, amigo que sentava nos finais das tardes à sombra da murta perfumada para apreciar sua Pinguinha envelhecida num tonel de carvalho, buscada em Santa Mariana, decantada e filtrada e por fim depois de muitos meses, degustada enquanto ouvia Bolero de Ravel em sua vitrola.
Apesar de ouvir com certa dificuldade devido ao problema de audição causado pela idade, Milton era incansável em suas conversas no final das tardes úmidas ao pé da murta.

Por fim, mas não só isto, Milton foi um excelente mágico, capaz de tirar balas de orelhas, fazer coca cola e fazer desaparecer objetos em caixa de fósforo.

Capaz de processar e congelar até a última uvaia madura do quintal ou mesmo passar vários e vários dias processando repolho para transformar em chucrute para não desperdiçar nada.

Mas muito mais do que tudo isto foi um avô capaz de transformar tão profundamente nossas vidas que a todo instante temos lembranças de seus ensinamentos.
Percebo que em muitas situações de meu dia a dia retomo falas dele de quando em era criança. Mesmo que na época a vontade fosse fugir para não escutar. Principalmente quando as pinguinhas já tinham se tornado um pouco maiores que a capacidade de seu organismo em processar o alcool ingerido.
A cena dele escrevendo em sua pequena cadernetinha é uma cena tão comum quanto observar há um dia após o outro. Não me lembro de vê-lo sem sua cadernetinha. O que vi, o que penso. Nome muito sugestivo para uma caderneta de anotações. Lá colocar tudo aquilo que foi visto, que chamou a atenção e que pensava sobre tudo.
Muitas vezes fico imaginando como foi o primeiro rascunho e quando isto possa ter acontecido pela primeira vez. Pegar um pedaço de papel, e nele anotar todas as coisas que me interessam mas além disto, fazer reflexões acerca destas coisas e tentar de alguma maneira melhorar o mundo. Quantos anos teria? Qual foi a primeira coisa que escreveu? Provavelmente, como pesquisador, deve ter experimentado várias formas antes de chegar ao formato utilizado até o seu último dia.

Me lembro de vê-lo algumas vezes escrevendo, escrevendo, escrevendo... Aquilo se tornara um passatempo amigo, um companheiro de conversas, principalmente nos momentos em que os netos fugiam de sua presença. Enquanto corriamos no quintal, com maior cuidado para não derrubar nenhum vaso ou quebrar nenhum galho das plantas, observávamos que ele estava fazendo algo. Sua mente não descansava.
Mesmo que não tenhamos conseguido ser tão grandiosos como Milton Alcover foi, temos dele a nítida lembrança que ele ainda está falando e nos ensinando, pois suas falas foram como pequenas sementes, que germinam, germinaram e germinarão na hora certa.
Claro, como um bom agrônomo e bom pesquisador, encontrou a semente certa, com a dureza precisa para germinar na hora exata e dar bons frutos.
Ser cientista, pesquisador é sonho de qualquer criança. Imagine ter um avô que fez isto a vida inteira e deu seu exemplo, paixão e dedicação para os filhos e netos. Cada um a sua maneira, mas todos com profundas raizes e marcas deixadas pelos seus passos.


Nós somos formados pelos exemplos e atos que temos ao nosso redor. E posso acreditar que o exemplo da pessoa Pesquisador, Mágico, Amigo, Avô, ficará gravada em nossa mente para sempre. Passaremos seus ensinamentos aos nossos filhos e netos com certeza.
Parabéns vô Milton.

Seu bisneto, o Francisco, aprendeu a fazer sua cadernetinha, mas aperfeiçoou a técnica para grampeá-la.
Penso que é porquê isto está no sangue.